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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Transeunte, de Eryk Rocha


Por entre as cinzas de um presente solitário escondem-se as linhas deriváticas de um futuro improvável. O anônimo de cada um de nós, o incomunicável, o comum, as tolices e as banalidades... a dor profunda da insuportabilidade. Para onde ir? Transeunte, personagem sem passado e sem presente, pura promessa de um futuro indecidível... Pelo jogo de devires e acasos, trabalho profundo da morte, tempo reverso de uma inexorável entropia. São os gestos, as margens do rosto, o mais intenso dos afetos que mapeia a passagem, com linhas, manchas e rugas... Transeunte das paisagens urbanas e força do tempo de um de acontecimento porvir.


sábado, 21 de maio de 2011

O Cangaceiro, de Lima Barreto


"Olê muié rendeira" canta o nordestern brasileiro. Cantos de alerta, cantos de amor; cantos expressivos, cantos gratuitos... Na linha tênue entre a fuga e a abolição, Teodoro e Maria rasgam a caatinga, estilhaçam os territórios, desconstroem os modos sedentários de viver dos homens de guerra e de religião, redispõem radicalmente o desejo em uma deriva extraordinária... Máquina de desterritorialização, o Cangaceiro anarquiza as situações e as ações, pulveriza os códigos, coloca em processo o meio histórico e geográfico, abre passagem para o fora e para a presença vitalizante das velocidades imperceptíveis e dos encontros impossíveis. Vida de cangaceiro feita de meios e de ritmos... Canto de liberdade banhado no amor e estendido na terra...

Limite, de Mario Peixoto


Sombras, telhados, algemas, árvores retorcidas e capinzal ventado... Limite não é um fluxo narrativo, mas uma desintegração rítmica de imagens. Cinema-poesia, de gestos e de imagens aleatórias, livres da significação e plenas de sentido. O homem engolido pelo marulho universal, o homem responsável por suas próprias algemas, as memórias que marcam uma imensidão inescapável... Narrativa trágica, quase cinema das derivas do tempo, Limite esculpe a matéria rosto, extraindo funções, comunicações, socializações e individualizações, até chegar a um quase nada, onde só restam os afetos ou o quase tudo de uma natureza em expressão. Natureza singular de um cinema que desfaz a ação e a paixão, rasgando o espaço-tempo das angústias e dos temores que afastam o homem da potência infinita de acontecer.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

The Black Power Mixtape, de Goran Hugo Olsson


O diretor Göran Hugo Olsson conta que, anos atrás, ouviu o boato de que a Suécia teria captado mais imagens dos Panteras Negras do que os EUA. Vasculhando em arquivos da TV sueca, Olsson descobriu que a rumor bem poderia ser verdadeiro... The Black Power Mixtape invade a cena contemporânea reinventando a dimensão mnemônica da imagem, tanto pela recuperação de arquivos a serem reeditados, quanto pela sensorialidade com que trabalha a fronteira entre a lembrança e o esquecimento. Estamos diante de uma remixagem musical do visível, o movimento como relação de pertencimento ao tempo, instaurando qualidades de uma visualidade rítmica. É com a decomposição do movimento que se propõe uma re-leitura, em que o filme seja mais música, mais movimento intenso, mais movimento no tempo... Um remix do visível em que o presente é tornado o não-visível pregnante da imagem.

Cópia Fiel, de Kiarostami


Cópia Fiel é também um road movie de uma cidadela só... James Miller é um escritor que está na Itália para lançar seu último livro em que fala sobre réplicas de obras de arte e originais, lá ele conhece a francesa Elle, que tem uma galeria de arte. No meio de um passeio eles são confundidos com um casal de marido e mulher e começam a agir como tal... Na encenação, o espectador não conhece o passado amoroso do casal, mas imerge na degeneração inexorável dos diálogos, num jogo intenso de modulações, deformações, dobras e variações narrativas contínuas... Entre cópias e modelos, o que desaba são as leis da similitude, o que acontece é o cinema do simulacro. Quando se perde toda a semelhança com o modelo, o que se descobre é uma economia do caos, uma administração das próprias paixões, uma estetização da existência, uma liberdade plena do encontro, uma conquista do tempo...


Exit Through The Gilf Shop, de Banksy


Uma personagem inventada por Banksy, o tal Mr. Brainwash, é Thierry, um francês que convenceu artistas de diferentes nacionalidades a filmá-los porque estaria produzindo um documentário sobre a arte feita nas ruas. Mr. Brainwash convence pessoas que pagam pequenas fortunas por quadros que não são tão especiais... Grafite, tintas, rolos e rolos de papel... Thierry filma tudo, sem critério ou seleção, e depois simplesmente guarda as fitas em enormes caixas. É pelas mãos de Banksy, um exímio manipulador, que o jogo vira... Thierry deixa de ser o diretor e se torna personagem. O que é falso? Uma narrativa que não pode se constituir; uma relação alterada do ator com a personagem; uma relação distribuída entre a personagem e a pessoa? A falseação de um acontecimento, a falseação de um evento, a falseação de um fato. O paradoxo é o elemento principal. As forças do tempo falseam e o paradoxo é esta falseação violenta das formas da verdade. Exit Through the Gift Shop é um anti-documentário raro, nem falso, nem verdadeiro, mas apaixonantemente paradoxal...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Poesia, de Lee Chang-Dong


O corpo de um cadáver boiando no rio, enquanto crianças brincam na margem. A dor da perda provocada pelo corte dos laços de convívio. A morte, a cultura do luto, a mudança para uma cidade distante, a câmera acompanhando o sentido implacável do fluxo temporal... O roteirista e diretor coreano Lee Chang-Dong afirma: "Ao crime, eu terminei aqui superpondo a história da idosa que descobre que sofre de Alzheimer. É uma situação dolorosa, a certeza de que vai mergulhar no esquecimento, que vai perder o vínculo com a realidade. Ela reage inscrevendo-se num curso de poesia." A sexagenária Mija trabalha como empregada doméstica, cuidando de um senhor que sofreu um derrame, e do emporcalhado neto Jong Wook. Mija está ao tempo todo se questionando o que é poesia, e descobrindo que o poético não é necessariamente sinônimo de belo. Mija percebe que a beleza está nas coisas simples da vida, como observar a natureza ou degustar uma maçã, momentos em que se pode contemplar o ritmo lento da narrativa, as tomadas longas, as imagens ou os silêncios... Sem otimismo ou pessimismo, “Poesia” explora os caminhos éticos da experiência dramática de afirmação do trágico: o escândalo da morte, a expulsão do campo psicossocial. Para Mija, talvez a arte seja a única forma de esquecer a morte, redimir o passado e se abrir para o futuro. Pela faculdade do esquecimento e pela prática da estética tem início o aprendizado da idade, a poesia trágica e renovadora do envelhecimento.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Samba que Mora em Mim, de Georgia Guerra-Peixe


Quando uma alma se libera, um novo mundo se torna possível... Inicia-se então uma espécie de descobrimento de si por entre a multiplicidade que vai além do vivido. O Samba Que Mora em Mim é a quebra da cadeia de hábitos, um rasgar de memória que produz sentido, a invenção de um estilo, uma perspectiva impessoal, um devir constituinte, um ato de amor, uma conquista do tempo... Com uma câmera-desbravadora que percorre ruas, becos e vielas, o sujeito-artista investiga os amantes do samba para encontrar a verdade profunda do tempo e o esquecimento da morte. Mas é só quanto os encadeamentos biográficos se quebram, que a penetração no "morro" se torna acontecimento. Prática estética que libera o passado, abrindo o homem para o futuro. Samba-enredo que ganha o morro, liberto de mim.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Mágico, de Sylvain Chomet


“Os mágicos não existem”, mas a magia insiste... Com uma descrição magistral das várias paisagens por onde os encontros se desenrolam, os caminhos de dois personagens vão sendo construídos, na medida inexata em que suas vidas se modificam. Um mágico a procura de trabalho e uma garota encantada com suas peripécias decidem viajar... O novo trabalho de Sylvain Chomet, adaptado de um argumento de Jacques Tati, é um confronto com a realidade ilusionista da vida moderna, um questionamento dos modos asfixiantes do contemporâneo, uma fuga da insuportabilidade do cotidiano... O consumo, o espetáculo, o sonho, o tédio, a fadiga e a indiferença são apenas alguns dos fantasmas que impedem a vida de encontrar as dimensões mágicas do existir... A produção de sentido é antes o próprio sentido da magia. O sorriso, a dança, a brincadeira, o amor, os muitos mundos possíveis de uma criança... Para isto, os mágicos ainda consistem.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas, de Apichatpong Weerasethakul

Tio Boonmee é uma renovadora problematização do tempo, a partir da espiritualização contemplativa da imagem cinematográfica, que examina a produção da memória em suas qualidades de registro e de potência infinita de repetição. Desconstruindo os mecanismos imaginários e ficcionais da subjetivação, Apichatpong nos propõe o ultrapassamento da consciência, em um mergulho profundo no virtual, enquanto fonte contínua de acontecimentos inéditos, imanentes à natureza. Questiona a alteridade, a busca cega de sentido, o finalismo do contato cósmico e místico, a humanização de outras formas de vida e a impossibilidade da coexistência de múltiplos tempos na duração. É de um deslocamento do pensamento recognitivo da memória que estamos diante... Confrontando a desqualificação da dor, a negação da velhice e a cultura da morte, é em direção a uma zona de indiscernibilidade do amor, da natureza e do pensamento, que somos lançados.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel


A negação do acaso e a incapacidade de apreender as virtualidades em jogo maracam o sufocamento de uma sociedade refém das máscara e das representações. Buñuel registra a desarticulação das palavras de ordem que faz emergir o caos, ao mesmo tempo em que personifica a intolerância em personagens presos a regimes de significação e organização de um misticismo doentio e de um subjetivismo esfacelado. As saídas que evocam uma memória de marcas só poderiam conduzir a uma reterritorialização ainda mais implacável.

O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog


"Cada um por si e Deus contra todos". Devastar os costumes e as tradições com um paisagismo anômalo. Enfim um pouco de natureza ventila pelos centros de poder de uma sociedade sedentarizada nos valores e verdades de uma época. O Kasper Hauser de Herzog dramatiza a mais alta potência do anômalo, articulando imagens de lugares distantes, movimento involutivo na natureza intensa que nos possui, sem impor cenários, mas abalando Deuses e nos arrastando nos mais profundos limiares do humano e do inumano.

Paris Texas, de Wim Wenders


O filme aborda um movimento intenso de desterritorialização do desejo. Através de uma atmosfera desértica e esvaziada pelo esquecimento e perda do nome próprio, desenha um movimento tortuoso de afundamento do sujeito e esfacelamento da identidade, passionalmente produzidos. Ao traçar assim um labirinto no tempo, entrecortado por blocos de memória, ausências e suspensões, o filme vai desdobrando uma teia afetiva com suas rupturas e nós amorosos. Com uma trilha sonora penetrante, Wim Wenders coloca singularmente o problema do modo mais sutil de captura do desejo, aquele produzido pelo amor que se enreda na conjugalidade, seus becos sem saídas e buracos negros, seu modo de produzir memória e projeto e inviabilizar ou reencontrar o devir.

Lavoura Arcaica, de Luis Fernando Carvalho


Mistura de cacos de vários lugares. Um tecido de diferenças e contrastes humanos. A mistura de tudo e depois é botar a lente, o olho de um narrador reflexivo. O cinema refletindo os acontecimentos tece um personagem. O acontecimento é do trágico, do irrecuperável, já é passado, é marca. A Lavoura é a cartografia da alma que sofre de uma dor do tempo.

Os Pássaros, de Alfred Hitchcock


Os Pássaros de Hitchcock narra a desconstrução dos modos “humanos” de viver, a partir da animalidade intensa dos devires que nos povoam. As alianças disruptivas do desejo, a fuga audaciosa dos aparelhos de captura, a natureza anti-natural dos afetos animais e as forças vertiginosas do fora criam uma tecitura de relações casuais e necessárias às “núpcias de um outramento”. A domesticação dos relacionamentos e a conjugalidade familiarista é progressivamente abalada a cada novo ataque dos pássaros. Ao mesmo tempo, emergem as condições reais para os encontros que efetuam, em meio à selvageria caótica, as possibilidades de um grande amor.

Bom Dia, de Yasujiro Ozu


Corredores e aposentos vazios, varais, postes, fachadas de casas, planos gerais de paisagem, entre-casas e entre-planos.“Bom Dia” afirma a incomensurável beleza dos momentos breves e banais que, plenos de novidades, são capazes de sentido e de vida. Uma fina análise da reconstrução japonesa do pós-guerra, com grande amor pelos paradoxos. Ozu vai nos mostrando que se a televisão catalisa o fim da família tradicional japonesa, se impera a desconfiança entre os vizinhos, se há indícios de convulsão social (a aposentadoria, o desemprego, o trabalho informal), se os homens não conseguem mais dizer o que importa, escondendo-se em frases feitas, é justamente o diálogo repetitivo e cotidiano sobre o tempo, que permite ao professor se aproximar da tia de seus alunos, por quem é apaixonado. Pervertendo as tradições e os costumes, é a ingenuidade pueril de uma greve de silêncio que expõe as redundâncias lingüísticas e desarticula a ordinariedade empoderadora dos não-ditos que sustentam uma ruidosa convivência social e inter-geracional. O rigor da depuração do plano cinematográfico, o ritmo encadeante dos planos e seqüências descontínuos, os fatos narrativos levados ao extremo da simplicidade e do anti-dramatismo, a minuciosa composição do quadro, tudo isso geralmente provoca sensações mais do que argumentos. Uma narrativa que é pura ficção, um realismo que é do tempo.

Calígula, de Tinto Brass


Sádico, cínico, déspota, irresponsável, megalomaníaco, sanguinário, paranóico? Calígula não quer deixar escapar nenhum fluxo. É a vontade do déspota, são as formações de soberania. Calígula recorta as estruturas de aliança e filiação, uma estrutura espacial fundiária, um sobrecódigo das relações, uma demarca de corredores, ruas e aposentos. Um esquadrinhamento espacial. Este Estado que surge se chama “Eu”. Calígula déspota e escravo que está em nós, regime de autoridade e homem de cinismo. O épico-erótico de Tinto Brass reflete a gênese da nova aliança nas figurações teatrais e plásticas do fazer do déspota: a filiação direta com Deus com o retomar de um fluxo germinal intensivo. Uma educação dos esfíncteres, uma retenção de fluxos, uma transgressão incestuosa. Eis a palavra de Calígula-Estado paranóico e despótico.

Confiança, de Hal Hartley


Enfim, Maria se dá conta de que há algo de confiável em Matthew: “ele é perigoso e sincero”. Hal Hartley nos dá um retrato realista dos modos de subjetivação independentes, modos de existência singulares que produzem corpo a partir do abandono das roupagens justas do senso comum. Se existe um combate, não é o dos vencidos contra os ganhadores, mas de todos os clichês que contracenam com as linhas de fuga que afirmam o ser em sua heterogênese. Em um pólo de captura, são corpos e atitudes teleguiados por uma força de homogeneização, compondo na tela uma uniformidade chapada: mães que odeiam seus filhos, pais ressentidos que despejam sua culpa, perversos panoptizando por fascinação histérica. Mas uma granada faz circular o potencial de explosão deste estado achatado de banalidades. Que se possa acioná-la a qualquer momento, basta recuperar a crença no acontecimento, basta optar pelo trágico, basta confiar e conseguir entregar-se por inteiro.